Monday, August 13, 2007

Meu Primeiro Beijo



Tava aqui lembrando do meu primeiro beijo. Foi com dezoito anos, quando faltavam mais ou menos duas semanas para o meu próximo aniversário. Até pouco tempo eu morria de vergonha de falar que beijei com essa idade. Aconteceu por acaso, uma casualidade providencial. Fiquei umas duas horas com o rosto tombado pra esquerda, já que do outro lado não rolava um encaixe legal. Achei tudo meio esquisito, mas foi bom. Fiquei sentindo meus lábios sendo beijados por um bom tempo, até cair no sono. Se eu pudesse teria beijado mais cedo, mas eu era tosca o suficiente para não ser desejada, e tímida o bastante para dispensar os poucos aventureiros que tiveram coragem de chegar em mim. Sempre tive vontade de beijar alguém que usasse aparelho, mas sei que, quanto mais velha vou ficando, mais remota a possibilidade. Não tenho lá muita paciência para adolescentes, e não costumo freqüentar consultórios odontológicos.
Entre as minhas memórias infantis - não muito confiáveis - consta uma cena em que me vejo agarrando um vizinho, atrás de uma moita no quintal da minha casa. O guri se limitou a um selinho babento, portanto, não considerado por mim como um beijo. Nem mesmo sei se isso realmente aconteceu, talvez seja invencionice da moleca sonhadora que sou. Além do mais, a distância temporal que separa o provável primeiro beijo do que seria o segundo é tão longa que eu poderia me considerar novamente uma virgem.

Friday, August 10, 2007

As pessoas querem fazer da vida um filme. Não um filme qualquer. Nada de escolas neo-realistas. Querem a ficção, o fantástico. Sempre atrás de fortes emoções e aventuras na tentativa de fingir um mundo. E seguimos assim, em pensamento, vivendo uma vida que não vivemos – é impossível transpor para a realidade. E motivados pela fantasia e pela imaginação, somos levados a idealizar tudo; as coisas não são vistas como realmente são, mas como deveriam ser segundo uma ótica pessoal. Sendo assim, não conseguimos nada além de eterna e profunda sensação de frustração.Nós temos uma tendência para querer viver a vida como se fosse um conto de fada. Como toda moçinha sofre, escolhemos os caminhos mais difíceis, esses que nos fazem sofrer – mesmo que seja uma dorzinha assim, fingida. Em parte queremos fazer da vida um drama. Queremos ser protagonistas de lendas que só existem nos livros e nos filmes. Uma reprodução de histórias incríveis. Brada o homem apaixonado, renegado por não saber dizê-lo: “o amor não precisa do poeta”. E continuamos a insistir, quando poderíamos simplesmente sentir. Será que não temos capacidade para perceber o mundo? Estamos tão insensíveis que precisamos desse exagero, desse excesso de rendas e babados para tornar a vida mais interessante. E dessa necessidade nasce a obrigação. E vivemos uma vida infeliz, tentando ser heróis, querendo alguém que nos faça sentir como heróis e cobrando isso dos que nos cercam - pobres mortais. Queremos nos ver rodeados de “celebridades”, de amigos igualmente infalíveis, de amores incríveis enquanto o mundo – intocado - segue belo, logo abaixo do nosso nariz.Nos alimentamos de ilusões; até que num momento seguinte, elas também passam a fazer parte do cotidiano. E nos vemos novamente sem sentir. A mão esfria, o corpo esfria, a pele ressecada conta o tempo. A vida novamente sem sabor. E quando deveríamos mudar de capítulo, nada muda. Descobrimos-nos novamente nessa vida vazia, nesse vazio de vida. E angustiados seguimos bebendo essa água morna na eterna tentativa de inventar outros motivos, outras belezas. E chega uma hora que alguns se cansam disso tudo. Percebem que a vida que se cria não passa desse eterno ciclo. E que não adianta você fazer mais e mais, sempre vai faltar alguma coisa. É quando resolvem parar, e tudo pára. A morte como solução. Não a física, se morre também em vida. A vida, passa. A vida, pára.Somos e seremos sempre românticos. Almas artistas que se vêem diante da completa impossibilidade de realizar o sonho do "eu".