Tuesday, March 27, 2007

Não sou feliz, mas sou magra

Ser magra não é necessariamente sinônimo de beleza - muito menos de felicidade, mas assim acredita o mundo do consumo. Eu, consumista assumida, sou magra, portanto, deveria ser bonita e, assim sendo, feliz. Mas ao contrário do que esse mesmo mundo vende, ser magro pode ser algo extremamente complicado. Ser magrela é ainda mais. E se você, querido magrelo, não tem fama nem dinheiro, fodeu!
Meu índice de massa corpórea é abaixo do considerado saudável, mas a minha saúde é de ferro. Não sofro de anorexia e nem bulimia, posso até mesmo dizer que sofro de gula e que ficar embuchada não é privilégio dos gordinhos. Mas para ser um magro ou um gordo - ou qualquer outra coisa que você seja ou queira ser - respeitado só mesmo tendo dinheiro, muito dinheiro. Nós demais casos - ou classes sociais – você, gordinho ou magrinho, vai ser uma pessoa normal, nada mais. E para todos os normais existem os pros e os contras de ser o que é. E vai ser o peso de ambos na balança que irá definir se você será respeitado socialmente ou não. Ser um magricela pode ser traumático. Veja por que:
  • Namorar outro magrelo (a) costuma ser extremamente desconfortável – exceto se você não tiver problemas com hematomas, dores e possíveis esfoliações na região dos quadris.
  • Ser chamada de Olívia Palito, “saco de osso” e outros apelidos desagradáveis;
  • Você nunca vai ser chamada de gostosa e, às vezes, isso é necessário para levantar o ego, acredite;
  • Você não pode comer excessivamente, pois, qualquer exagero é facilmente percebido devido à falta de gordura na lateral da cintura deixando-a com aquele aspecto “melancia no espeto” ou “mãe, estou grávida de dois meses”;
  • Magrelas não estão imunes a celulites, estrias, rugas e...
  • Costumam aparentar mais idade que as gordinhas, gostosas e afins.
  • Somos mais suscetíveis a traumas físicos e lesões em geral;
  • E, de acordo com a Mariah, não podemos usar fantasias de pin up - o que eu discordo com veemência.

Mas a sua magrelice pode ser também uma tábua de salvação, ou um meio caminho para a felicidade.

  • Qualquer coisa lhe cai bem – fazer vista grossa para canelas finas e joelhos realçados não custa nada, não é mesmo minha gente?!
  • Mais mobilidade para correr atrás do ônibus ou atrás daquele filho da mãe que roubou sua bolsa;
  • Somos mais friorentas e não existe roupa mais elegante que as de inverno;
  • Magrelas não têm quadril e eu gosto assim, faço tudo para disfarçar o pouco que tenho;
  • Você não sente vergonha ao pedir uma calça numero 34, 36 ou 38;
  • E, mesmo com as inúmeras desvantagens primeiramente listadas ainda sofremos menos preconceitos que as pessoas mais cheinhas. Você pode não ser feliz, nem bonita, mas é magra.

Monday, March 19, 2007

Eu nunca sei o que fazer com um elogio. Se pego e guardo no bolso, se finjo que não vi, se devolvo com um sorriso, um muito obrigado ou um novo elogio. Tudo me parece falso, incluindo, muitas vezes, o próprio elogio. Sempre que sou surpreendida opto por um sorriso, ou melhor, os músculos da face se contraem vergonhosos e trêmulos formando um risco de tonalidade amarela desconcertante. A tensão é inevitável. Pior ainda quando resolvo fazer algum comentário, sempre soa idiota e desnecessário. É como se o elogio bloqueasse momentaneamente minha capacidade de pensar. A falta de habilidade é encarada, não sem razão, como antipatia. Quando a resposta não precisa ser imediata fico encarando-o por horas sem saber o que dizer, querendo ser adequada. Acabo por assim perdendo a oportunidade de ser espontânea, e expondo minha insegurança através de uma resposta ruminada à exaustão.

Thursday, March 15, 2007

Depois do amor, o gozo.

O homem tem sua vida dividida em fases. Para tudo que faz existe um processo pré-estabelecido pelo espertinho que se consagrou o primeiro ou que primeiro se desgraçou. Esse processo é suavemente modificado de acordo com a cabeça que a executa, histórico pessoal e toda essa baboseira freudiana. Tudo na vida acompanha um processo gradativo, nada acontece de supetão. E o amor não é um caso a parte.

Todo ser humano normal, ou seja, dotado de um coração, percorre cinco fases ao se apaixonar: o encantamento, a paixão propriamente dita, o amor impropriamente dito, a confirmação do amor, o devotamento, a dor, a superação e, finalmente, o gozo.

O encantamento é a fase mais superficial e, por esse motivo, acontece com certa freqüência. Nem por isso é desonesto. O único problema é que, para se encantar, não é necessário conhecer objeto de desejo muito a fundo. O encanto é uma fase meio fútil. Mas é de utilidade primordial para que a tal paixão brote. Pode ser despertado pela beleza, pelo cheiro, pelo jeito de andar... Motivo é o que não falta. É a fase em que o sujeito mais sonha e na qual mal imagina que o outro ronca a noite, peidar alto e arrota na mesa, não sabe falar de outra coisa que não seja o último paredão do big brother, que deixa calcinha secando no banheiro, toalha molhada em cima da cama e por aí a lista só aumenta. Daí o sujeito, dando sorte, pode-se desencantar no minuto seguinte e evitar o que ainda está por vir.

Há de se convir que, às vezes, quanto mais se conhece mais se encanta. Muito prazer, você está apaixonado. A vida ganha cores, perfumes. O sorriso fica largo. O dia pequeno. Tudo parece dar certo. Até mesmo aquele seu chefe rabugenta vira do nada, um cara bem-humorado, do tipo que conta piada. Tudo a sua volta lembra seu objeto de desejo. Você começa a querer dormir junto. Acordar junto. Comer junto. Chega ao cúmulo de pensar em juntar as escovas de dente. Nada na vida tem graça longe daquele bendito ser. Cuidado, pode ser o amor impropriamente dito. Se em algumas semanas os sintomas continuarem os mesmos não há de se negar o amor.

O amor é um filha da puta em potencial. Te deixa de quatro - pra não citar outras posições do kama sutra. De cego o amor não tem nada, muito pelo contrario. Nessa fase você passa a enxergar todos os defeitos da outra pessoa, e o pior, continua apaixonada. Tarde demais. Segura o santo que a fé é grande. Da-se início ao processo de devoção.

É hora de elevar o amor a um pedestal. Não, pedestal é pouco, cria-se um altar, um verdadeiro santuário para nosso objeto de desejo. Tudo que ele diz é sagrado. Nada desabona suas atitudes. E para mantê-lo assim seguimos um verdadeiro calvário. Pesada é a cruz. Mas o pior vem a seguir. A hora da crucificação. Quando nosso objeto de desejo lava as mãos. Desiste. Bate asas.
Se eleva aos céus e nos condena ao inferno da dor de cotovelo.

A dor. Dores generalizadas, principalmente na altura do peito e das nádegas. Faz nausear o estomago causando perda de apetite. Em outros casos ansiedade, fazendo crescente o consumo de chocolate. Ganha-se rugas, cabelos brancos, gordura localizada. Perde-se as unhas e o humor. Mas basta perder as esperanças que a razão convida a tempo o tão doce esquecimento.

Dores de amor, como todo mal, exigem quarentena. Um isolamento que vai ajudar a cauterizar tudo o que estiver aberto em você. Mas não esqueça que estas tais dores de amor não tem atestado médico. Cuidado para não perder o emprego ou o período da faculdade. E quando a quarentena chega ao fim vai precisar ser forte para evitar, a todo custo, as recaídas. Você parece – e só parece - viver o melhor momento da sua vida.

Cheia de planos, tantos que nem vai conseguir colocar metade deles em prática. Jura que está muito melhor agora. Mas no fundo é só fachada. Depois de alguns meses - até anos em casos de extrema gravidade e não tão raros assim - de reclusão e escassas saídas furtivas, tudo para não esbarrar com a ex por aí, você resolve voltar ao convívio social. Uma forma de mostrar pro seu ex-objeto de desejo que “tá tudo bem”, apesar de você ainda não ter decidido se vai continuar amando ou se já consegue odiá-lo.

Um dia você acorda e se toca que esse sofrimento todo já não faz o menor sentido na sua vida. Depois de toda tensão. Todos os preparativos. Tantos esforços. É chegado o momento mais desejado, o gozo. Aí sim, você relaxa e já não se importa mais de ver aquele objeto por aí. Aquela rua, aquele bar, aquele carro, passam novamente a ser paisagem na cidade. E se ele passar? Pode passar a vontade. Porque nessa vida tudo passa e aquilo tudo já passou.
*Composição a quatro mãos por Perdita Valente e Michelle Lisita.

Tuesday, March 13, 2007


Quando eu tiver um carro acho vou sentir muita falta de andar de ônibus. Gosto de ficar sentada dando longas voltas na minha cabeça, por isso a preferência por percursos longos. No carro vou dividir a atenção com o tráfego. Mas o que mais me agrada é a caminhada até o ponto. Em dias frescos e boa companhia é ainda melhor - pensar em dupla.

Segundo texto do site Overmundo quem anda a pé ganha mais tempo. Uma vantagem para quem não quer – ou não pode - abandonar o Mercedez.

Quem anda de ônibus ou de metrô tem suas vantagens. Quando alguém compra um carro quase sempre ganha de brinde uns 4 kg de peso. Só quem não tem carro sabe o quanto caminha diariamente. Afinal, tomar um ônibus para andar apenas algumas quadras não vale a pena, mas quem tem um carro o tira da garagem. Além da elegância, a saúde do desmotorizado também agradece, pois exercícios fazem bem. Este é um argumento comum a favor de não possuir um carro, mas facilmente contestável, pois, teoricamente, quem tem um carro tem mais tempo e facilidade para realizar atividades físicas.

Aí está um ponto interessante: o tempo. Quem não tem um carro e anda de ônibus ou de metrô, ao contrário do que muitos pensam, ganha muito tempo! Principalmente em cidades pequenas, no caso de ser necessário utilizar apenas uma linha de ônibus para se deslocar ao trabalho ou ao estudo, ganha-se tempo livre na viagem. Ficar de 20 a 30 minutos sem nada para fazer raramente é possível no dia-a dia. O ônibus é o único lugar em que todos se dão ao direito de não fazer nada – o período reservado ao deslocamento é totalmente inútil. Dessa inutilidade surgem interessantes oportunidades de despender o tempo:
  • olhar pela janela;
  • olhar as pessoas;
  • dormir (o ônibus é o lugar para dormir com tranqüilidade, pois não há culpa por não estar fazendo outra coisa);
  • ler;
  • escrever (pequenos textos podem ser iniciados e estruturados no deslocamento para o trabalho – 20 min rendem um bom começo);
  • escutar música;
  • enviar mensagem de texto (os amigos não entendem por que chovem torpedos em suas caixas de mensagem em determinadas horas do dia...) ou acessar a internet pelo celular;
  • conversar;
  • fazer anotações;
  • rezar (baixinho, por favor), caso seja seguidor de alguma religião;
  • o que mais sua imaginação criar e a vida em sociedade permitir.

Créditos:

foto: devianart: People On The Bus, by broken_glass. artigo: “Desmotorizados ganham tempo”, site overmundo.com.br/overblog.

Monday, March 12, 2007

Nunca passei pela infelicidade de perder pessoas muito próximas, mas posso imagino como é doloroso e lamento apenas por saber que a possibilidade não é nem de perto descartável. Lidar com a morte é tão complicado. Uma coisa é saber que a pessoa está solta por aí, e quem sabe, por obra do destino ou de alguma força qualquer, os caminhos venham a se cruzar novamente, mesmo que para trocar apenas um oi. Outra é saber que se perdeu pra sempre, que nem a sorte nem o acaso serão capazes de proporcionar um mero contato visual, que seja.
Meus avós maternos morreram quando eu tinha sete anos. Esse foi meu primeiro contato com a morte e não me lembro de ninguém vir conversar comigo a respeito e me explicar o que tudo aquilo significava, também não fui ao enterro – muito sensato por parte dos meus pais. Considero como tradição dispensável que só tem beleza nos filmes. Não sei se pela tenra idade ou pelo tratamento pouco familiar que tinha com a família adotiva da minha mãe, não me comovi. Sei que chorei, mas com o intuito de chamar atenção, lembro-me bem. Ao longo dos anos houve outros casos de morte na família, encarados com igual distanciamento emocional.
Já chorei por desconhecidos ou conhecidos levemente distantes. Sinto-me comovida pela dor do outro e não consigo acompanhar um velório sem acompanhar as lágrimas alheias. E se os diversos olhares tristes não forem suficientes para me comover, basta-me apenas um abraço. Chego a inventar lembranças para justificar aquele típico nó na garganta. Para mim, o momento mais difícil é quando o corpo desce a sepultura para ser enterrado. Até então vive-se uma espécie de estado de torpor emocional, é como se a pessoa ainda estivesse ali, chorando junto com todo mundo e achando aquilo igualmente triste. Como se ainda fosse possível o acontecimento de um milagre. Pesa-me também quando penso o quão deve ser angustiante ser enterrado - como se o corpo, morto, ainda sentisse. Sinto tanta pena por saber que ele vai ficar lá, sozinho. E que será sufocado por camadas de madeira, concreto e terra. E que seu corpo vai ser devorado por vermes e ele nem ninguém, nada poderão fazer. Sei que é ingênuo, mas pra mim é como se o corpo mantivesse a consciência do que se é e de tudo que está acontecendo à sua volta. Por isso, já tratei de informar aos meus familiares que eu quero ser cremada. É quase uma exigência. Como morto consciente, iria sentir-me mais confortável em relação à morte – exceto se me trancafiassem num potinho. Como pessoa que fica, acho mais poético e menos doloroso. Com certeza eu iria me dar melhor com a morte de um ente querido caso ele fosse cremado. Dando liberdade as cinzas, dá-se liberdade a quem se foi. Cultivo a ilusão de que assim a pessoa não vai embora. O fato de saber que a matéria continua vagante me conforta. As cinzas, quando levadas pelo vento, se agarrarão a outras formas de vida e continuarão a habitar o mundo. E assim, romanticamente, me despeço.

Friday, March 09, 2007

Meu estado de felicidade imaginária durou menos que o intencionado. É que, para fugir para o além mundo, a música só funciona como um portal se houver uma pré-disposição por parte do ouvinte. Um sentimento previamente proposto.

Uma mesma música pode nos levar para lugares diversos e completamente contrastantes. Pra mim o tom da música vária de acordo com o tom do humor. Nada adianta ouvir um samba do crioulo doido se a intenção é consumir tristeza. Nessas horas a música continua funcionando como válvula de escape, mas deixa de ser sonho pra passar a ser apenas parte do estado de tristeza.


"De repente a gente vê que perdeu. Ou está perdendo alguma coisa".
Um detalhe que gostaria de compartilhar:
Entre as descobertas da musimaníaca que cá vos fala, a mais recente e proveitosa foi um plugin aplicado ao winamp e aos windows media player que permite acompanhar a letra da música enquanto se escuta. É só dar um pulinho no “terra letras” e baixar o seu. ;)
Todo mundo que tem alguma relação com a música, por mais fina e superficial que seja, já se viciou em uma música.
Eu tenho esse costume de viciar em uma música e escutar ela direto - viva o repet!
É natural que elas tenham algum tipo de relação com que estou vivendo, mas às vezes sou surpreendida por uma música que, aparentemente, não tem ligação com as minhas necessidades momentâneas. É o caso que me levou escrever.
Tenho um gosto musical bastante eclético, mas nem por isso, pouco exigente. Entre as minhas preferências a música brasileira se encaixa confortavelmente, embora - sim, confesso - não escute com a freqüência devida. Passo a maior parte do tempo no trabalho, e quando estou trabalhando dou preferência às músicas de consumo rápido, que não exigem muita atenção. Não consigo ouvir música brasileira sem dispensar cuidado especial à letra. Minha dificuldade também se estende a outros estilos; mesmo as musicas em língua estrangeira, não consigo ouvir sem me dispersar. Quando escuto uma música sou toda sensações. Invento vídeo clipes, me imagino uma cantora famosa, revejo cenas de filmes, recrio lembranças, me emociono. Eu sei, isso parece ridículo e talvez até seja, mas faz parte do que sou. Como é gostoso – e besta ao mesmo tempo, rs - me imaginar pulando e sambando, subindo a ladeira de alguma cidade montanhosa embalada pelo meu mais novo vício.
Por sorte e exceção o dia está calmo. Posso ouvir quantas vezes for necessário para enjoar do atual estado imaginário para, assim, me abrir a novas musicas e novos sonhos.

"Eu quero é botar meu bloco na rua. Brincar, botar pra gemer. Eu quero é botar meu bloco na rua. Gingar, pra dar e vender".