Thursday, March 15, 2007

Depois do amor, o gozo.

O homem tem sua vida dividida em fases. Para tudo que faz existe um processo pré-estabelecido pelo espertinho que se consagrou o primeiro ou que primeiro se desgraçou. Esse processo é suavemente modificado de acordo com a cabeça que a executa, histórico pessoal e toda essa baboseira freudiana. Tudo na vida acompanha um processo gradativo, nada acontece de supetão. E o amor não é um caso a parte.

Todo ser humano normal, ou seja, dotado de um coração, percorre cinco fases ao se apaixonar: o encantamento, a paixão propriamente dita, o amor impropriamente dito, a confirmação do amor, o devotamento, a dor, a superação e, finalmente, o gozo.

O encantamento é a fase mais superficial e, por esse motivo, acontece com certa freqüência. Nem por isso é desonesto. O único problema é que, para se encantar, não é necessário conhecer objeto de desejo muito a fundo. O encanto é uma fase meio fútil. Mas é de utilidade primordial para que a tal paixão brote. Pode ser despertado pela beleza, pelo cheiro, pelo jeito de andar... Motivo é o que não falta. É a fase em que o sujeito mais sonha e na qual mal imagina que o outro ronca a noite, peidar alto e arrota na mesa, não sabe falar de outra coisa que não seja o último paredão do big brother, que deixa calcinha secando no banheiro, toalha molhada em cima da cama e por aí a lista só aumenta. Daí o sujeito, dando sorte, pode-se desencantar no minuto seguinte e evitar o que ainda está por vir.

Há de se convir que, às vezes, quanto mais se conhece mais se encanta. Muito prazer, você está apaixonado. A vida ganha cores, perfumes. O sorriso fica largo. O dia pequeno. Tudo parece dar certo. Até mesmo aquele seu chefe rabugenta vira do nada, um cara bem-humorado, do tipo que conta piada. Tudo a sua volta lembra seu objeto de desejo. Você começa a querer dormir junto. Acordar junto. Comer junto. Chega ao cúmulo de pensar em juntar as escovas de dente. Nada na vida tem graça longe daquele bendito ser. Cuidado, pode ser o amor impropriamente dito. Se em algumas semanas os sintomas continuarem os mesmos não há de se negar o amor.

O amor é um filha da puta em potencial. Te deixa de quatro - pra não citar outras posições do kama sutra. De cego o amor não tem nada, muito pelo contrario. Nessa fase você passa a enxergar todos os defeitos da outra pessoa, e o pior, continua apaixonada. Tarde demais. Segura o santo que a fé é grande. Da-se início ao processo de devoção.

É hora de elevar o amor a um pedestal. Não, pedestal é pouco, cria-se um altar, um verdadeiro santuário para nosso objeto de desejo. Tudo que ele diz é sagrado. Nada desabona suas atitudes. E para mantê-lo assim seguimos um verdadeiro calvário. Pesada é a cruz. Mas o pior vem a seguir. A hora da crucificação. Quando nosso objeto de desejo lava as mãos. Desiste. Bate asas.
Se eleva aos céus e nos condena ao inferno da dor de cotovelo.

A dor. Dores generalizadas, principalmente na altura do peito e das nádegas. Faz nausear o estomago causando perda de apetite. Em outros casos ansiedade, fazendo crescente o consumo de chocolate. Ganha-se rugas, cabelos brancos, gordura localizada. Perde-se as unhas e o humor. Mas basta perder as esperanças que a razão convida a tempo o tão doce esquecimento.

Dores de amor, como todo mal, exigem quarentena. Um isolamento que vai ajudar a cauterizar tudo o que estiver aberto em você. Mas não esqueça que estas tais dores de amor não tem atestado médico. Cuidado para não perder o emprego ou o período da faculdade. E quando a quarentena chega ao fim vai precisar ser forte para evitar, a todo custo, as recaídas. Você parece – e só parece - viver o melhor momento da sua vida.

Cheia de planos, tantos que nem vai conseguir colocar metade deles em prática. Jura que está muito melhor agora. Mas no fundo é só fachada. Depois de alguns meses - até anos em casos de extrema gravidade e não tão raros assim - de reclusão e escassas saídas furtivas, tudo para não esbarrar com a ex por aí, você resolve voltar ao convívio social. Uma forma de mostrar pro seu ex-objeto de desejo que “tá tudo bem”, apesar de você ainda não ter decidido se vai continuar amando ou se já consegue odiá-lo.

Um dia você acorda e se toca que esse sofrimento todo já não faz o menor sentido na sua vida. Depois de toda tensão. Todos os preparativos. Tantos esforços. É chegado o momento mais desejado, o gozo. Aí sim, você relaxa e já não se importa mais de ver aquele objeto por aí. Aquela rua, aquele bar, aquele carro, passam novamente a ser paisagem na cidade. E se ele passar? Pode passar a vontade. Porque nessa vida tudo passa e aquilo tudo já passou.
*Composição a quatro mãos por Perdita Valente e Michelle Lisita.

2 comments:

Anonymous said...

Um desabafo saudável, sem ares de ressentimento, rs. Acho que você conseguiu. Eu me lembrei daquele famoso texto do Augusto dos Anjos o tempo todo... não sei porquê. Mas eu fiz uma associação quase incosciente; consegui imaginar como é possível acordar um dia e escrever de maneira "poética" sobre o lado mais podre do ser humano, rs. Mas ainda é humano. A gente fala mal do amor, fala mal do outro, sabe muito bem o que nos espera, na maioria das vezes (do pó ao pó, rs)... mas está sempre pronto a iniciar um novo ciclo viciante. Todas aquelas fases, não necessariamente na mesma ordem. Mas o fato de que aquilo que denominamos de "sentimento" seja uma coisa caótica me agrada. Acaba sendo "orgânico", humano. Gostei muito do texto.


PS: Bom, eu deixo as minhas calcinhas secarem no banheiro, haha. Já fui muito censurada por ex-pares, rs. É um hábito que eu não pretendo mudar, rs. Não abro mão das minhas pequenas particularidades. E prefiro fazer comentários "ao vivo", rs. Me lembre de não escrever mais nada aqui.

Anonymous said...

Acredito em encantamento, paixão e amor, perfeitos momentos que nos permitem descobrir o melhor, sem medo ou pudor. Mágicos momentos onde são derrotadas as limitações, e nos deixam ir mais além, partilhando sempre momentos de descobrimentos. Segundos únicos. Brilhos ocultos. Luzes que iluminam. Momentos escritos com tinta superficial. Beleza de gestos, simplicidade nas palavras ditas, encontro dos olhares, emoção dos sorrisos. Sintonia, pura sintonia. Acredito, pois. Acredito que há pessoas que estão talhadas para se dar bem e gostar umas das outras, sempre. Desde que uma seja de Marte e outra de Vênus.

Beijão Perdita, sem medo de aparecer.