Nunca passei pela infelicidade de perder pessoas muito próximas, mas posso imagino como é doloroso e lamento apenas por saber que a possibilidade não é nem de perto descartável. Lidar com a morte é tão complicado. Uma coisa é saber que a pessoa está solta por aí, e quem sabe, por obra do destino ou de alguma força qualquer, os caminhos venham a se cruzar novamente, mesmo que para trocar apenas um oi. Outra é saber que se perdeu pra sempre, que nem a sorte nem o acaso serão capazes de proporcionar um mero contato visual, que seja.
Meus avós maternos morreram quando eu tinha sete anos. Esse foi meu primeiro contato com a morte e não me lembro de ninguém vir conversar comigo a respeito e me explicar o que tudo aquilo significava, também não fui ao enterro – muito sensato por parte dos meus pais. Considero como tradição dispensável que só tem beleza nos filmes. Não sei se pela tenra idade ou pelo tratamento pouco familiar que tinha com a família adotiva da minha mãe, não me comovi. Sei que chorei, mas com o intuito de chamar atenção, lembro-me bem. Ao longo dos anos houve outros casos de morte na família, encarados com igual distanciamento emocional.
Já chorei por desconhecidos ou conhecidos levemente distantes. Sinto-me comovida pela dor do outro e não consigo acompanhar um velório sem acompanhar as lágrimas alheias. E se os diversos olhares tristes não forem suficientes para me comover, basta-me apenas um abraço. Chego a inventar lembranças para justificar aquele típico nó na garganta. Para mim, o momento mais difícil é quando o corpo desce a sepultura para ser enterrado. Até então vive-se uma espécie de estado de torpor emocional, é como se a pessoa ainda estivesse ali, chorando junto com todo mundo e achando aquilo igualmente triste. Como se ainda fosse possível o acontecimento de um milagre. Pesa-me também quando penso o quão deve ser angustiante ser enterrado - como se o corpo, morto, ainda sentisse. Sinto tanta pena por saber que ele vai ficar lá, sozinho. E que será sufocado por camadas de madeira, concreto e terra. E que seu corpo vai ser devorado por vermes e ele nem ninguém, nada poderão fazer. Sei que é ingênuo, mas pra mim é como se o corpo mantivesse a consciência do que se é e de tudo que está acontecendo à sua volta. Por isso, já tratei de informar aos meus familiares que eu quero ser cremada. É quase uma exigência. Como morto consciente, iria sentir-me mais confortável em relação à morte – exceto se me trancafiassem num potinho. Como pessoa que fica, acho mais poético e menos doloroso. Com certeza eu iria me dar melhor com a morte de um ente querido caso ele fosse cremado. Dando liberdade as cinzas, dá-se liberdade a quem se foi. Cultivo a ilusão de que assim a pessoa não vai embora. O fato de saber que a matéria continua vagante me conforta. As cinzas, quando levadas pelo vento, se agarrarão a outras formas de vida e continuarão a habitar o mundo. E assim, romanticamente, me despeço.
Meus avós maternos morreram quando eu tinha sete anos. Esse foi meu primeiro contato com a morte e não me lembro de ninguém vir conversar comigo a respeito e me explicar o que tudo aquilo significava, também não fui ao enterro – muito sensato por parte dos meus pais. Considero como tradição dispensável que só tem beleza nos filmes. Não sei se pela tenra idade ou pelo tratamento pouco familiar que tinha com a família adotiva da minha mãe, não me comovi. Sei que chorei, mas com o intuito de chamar atenção, lembro-me bem. Ao longo dos anos houve outros casos de morte na família, encarados com igual distanciamento emocional.
Já chorei por desconhecidos ou conhecidos levemente distantes. Sinto-me comovida pela dor do outro e não consigo acompanhar um velório sem acompanhar as lágrimas alheias. E se os diversos olhares tristes não forem suficientes para me comover, basta-me apenas um abraço. Chego a inventar lembranças para justificar aquele típico nó na garganta. Para mim, o momento mais difícil é quando o corpo desce a sepultura para ser enterrado. Até então vive-se uma espécie de estado de torpor emocional, é como se a pessoa ainda estivesse ali, chorando junto com todo mundo e achando aquilo igualmente triste. Como se ainda fosse possível o acontecimento de um milagre. Pesa-me também quando penso o quão deve ser angustiante ser enterrado - como se o corpo, morto, ainda sentisse. Sinto tanta pena por saber que ele vai ficar lá, sozinho. E que será sufocado por camadas de madeira, concreto e terra. E que seu corpo vai ser devorado por vermes e ele nem ninguém, nada poderão fazer. Sei que é ingênuo, mas pra mim é como se o corpo mantivesse a consciência do que se é e de tudo que está acontecendo à sua volta. Por isso, já tratei de informar aos meus familiares que eu quero ser cremada. É quase uma exigência. Como morto consciente, iria sentir-me mais confortável em relação à morte – exceto se me trancafiassem num potinho. Como pessoa que fica, acho mais poético e menos doloroso. Com certeza eu iria me dar melhor com a morte de um ente querido caso ele fosse cremado. Dando liberdade as cinzas, dá-se liberdade a quem se foi. Cultivo a ilusão de que assim a pessoa não vai embora. O fato de saber que a matéria continua vagante me conforta. As cinzas, quando levadas pelo vento, se agarrarão a outras formas de vida e continuarão a habitar o mundo. E assim, romanticamente, me despeço.
2 comments:
’Quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela’, seja ela quem for. Não quero porcaria nenhuma, quero ser cremada, depois que tudo que prestar for retirado e doado. Não quero ninguém chorando por mim, isso é mera hipocrisia, é falsa devoção, afetação. Quero descer a escadaria, ouvindo saxofone, todo mundo cantando baixinho ‘Us and them’ de Pink Floyd, já deixei isso acertado com os meus filhos. E depois de tudo queimado, que as minhas partículas cinzas saiam pedalando por aí, grudando em flores amarelas ou em bicos de bem-te-vis e pardais.
Sou travada neste negócio de namoro virtual. Salas de bate-papo acho um horror. Para MSN, ICQ, Google Talk ou coisa parecida, não tenho a menor paciência. Beijão.
Bem...Ontem eu não estava em um dos meus dias prediletos, por isso o amargor nas palavras. Que chorem por mim, sei que alguns irão fazê-lo, não gostaria que assim fosse, porque já chorei muito e ainda choro e sei o quanto dói. Beijos.
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