No mundo há gente se apaixonando o tempo todo. Olhos procurando no outro o que não encontram em si e se encontrando. É gente querendo experimentar um novo mundo. Gente querendo se reconhecer em outro mundo. Aventureiros sedentos por novos sorrisos, cheiros, sabores, pele, temperos e temperamentos. Gente querendo viver. Tudo isso enquanto aqui celebramos um desses felizes encontros.
Porém, no mundo se construiu uma visão errada do amor. Paixões meladas de tristeza e sofrimento. Relações de dependência e submissão. Acabaram por tratar o amor como se fosse algo definido, formatado e pronto. E mais, convencionou-se também o tempo como unidade do amor. E como se isso não bastasse, assim como no amor, padronizaram o tempo. Deixaram-no duro e inflexível, mas nem o amor nem o tempo podem, mesmo porque nem são assim, tão amarrados.
Nem amor, nem o tempo se fazem em linha reta. Amor e tempo são energias em mutação. O amor quer ser interferido, quer ser violado, quer ser transformado a cada instante. A vida do amor depende dessa interferência. Nós somos o alimento preferido do amor, e também devemos devorá-lo.
O Amor, assim como o tempo de uma história, não precisa ter início, meio e fim. O amor - e o tempo - estão em movimento eterno, esticam e se contraem, se moldam aos nossos moldes.
Diante da impossibilidade de domar um amor, e levadas pelo medo e insegurança que essa incapacidade provoca, alguns casais, ao invés de encontrar a vida tão desejada, morrem no dia-a-dia.
Não permitam que a imagem sedentária e cansada do amor as domine. Não tenham medo, encarem esse desconhecido, pois o amor é o desconhecido. Deixem-se experimentar e serem experimentados.
Um outro problema que nos interfere e que nos roubam a vida seja ela solitária ou compartilhada é a obrigação de ser feliz. Perde-se o presente em troca do futuro onde tudo pode acontecer, inclusive nada.
Ser feliz não pode se tornar uma obrigação, muito menos tema para livros de auto-ajuda. As pessoas inventaram tantas formulas e joguinhos para a felicidade que desaprenderam a viver a espontaneidade. As pessoas culpam o cotidiano por sua incapacidade. Mas digo: Amor é cotidiano.
"O Amor não precisa ser aventureiro, empolgante e rotativo, como um roteiro de viagens especiais". O Amor existe no cotidiano e assim pode ser cultivado. Não existe privilégio maior que conhecer a fundo o dia-a-dia do outro. Os pequenos detalhes que só você conhece: a comida preferida, o jeito de andar pela casa, o espreguiçar, o jeitinho de fazer manha, o jeitão de provocar, cada gesto e seus significados. E outros tantos pequenos detalhes, não tão difíceis de captar, mas tão apaixonantes quanto, como o jeito dela dançar, o sorriso, o jeitinho entusiasmado de falar alguma coisa que acabou de lembrar, o cheirinho na nuca ou a maneira como morde o piercing...
Cotidiano é cumplicidade. É entender o outro através de um único olhar. É duplicar o guarda-roupa, os livros, os cd´s, os pares de calçados... É ter com quem dividir, não importa o que seja. É ter alguém para levar café na cama, para cozinhar ovos com tomate, para te fazer ninar com aquela música especial. É, acima de tudo, a certeza do reencontro, mesmo após um dia inteiro – ou vários dias - longe uma da outra.
Repito: Não se prendam à obrigação chata de ser feliz. Toda obrigação é opressora. E não importa quanto vale o amor; não se prendam a regras de medidas e não tenham medo de fazer apostas. "O Amor não precisa de atestado de garantia e durabilidade, nem misticismos e virtudes especiais".
*Sermão de casamento que eu vou ler para o casal mais lindo do mundo: Michelle Lisita e Mariah Valle. Texto por Perdita Valente - com dedos de Paulinho Moska e Mafalda Crescida.
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